Maio Amarelo: o que os acidentes de trânsito em SP revelam sobre controle emocional ao volante
- dr.monitora

- há 2 dias
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Poucos ambientes conseguem expor tanto o comportamento humano quanto o trânsito. E não apenas os comportamentos controlados, mas também os mais impulsivos e espontâneos que conseguimos ter, quase sem filtro. Porém, é justamente nesse ambiente, que mistura pressa, estresse e ego, que menos deveríamos abandonar nosso bom senso.
“A agressividade de um motorista está intrinsecamente ligada à maneira como ele regula suas atitudes em outros aspectos da vida.” Ao ler essa declaração, é fácil perceber o quanto é improvável que alguém discorde dessa realidade. Como condutores, passageiros, pedestres, infratores ou vítimas, todos nós compomos o trânsito como ele é hoje. E talvez por isso seja tão difícil definir claramente quem é herói, vilão ou apenas alguém tentando chegar ao seu destino. Afinal, todos dentro desse contexto estão influenciados pelos próprios estados emocionais.
“A forma como cada indivíduo conduz um veículo revela muito sobre sua personalidade e sua maneira de se relacionar com o mundo ao seu redor.” As duas declarações são da psicóloga, mestra e professora Bianca Duccini, publicadas pelo portal de notícias do Cruzeiro do Sul Educacional. Afirmações atemporais, que se encaixam facilmente dentro e fora do trânsito, mas que apontam para uma necessidade cada vez mais evidente: desenvolver autocontrole e gestão emocional no indivíduo, ao volante ou longe dele, para uma convivência mais responsável e justa.
Enquanto campanhas de conscientização buscam alertar sobre o uso do celular ao volante, direção sob efeito de álcool, excesso de velocidade e outros comportamentos que ainda precisam ser fortemente desincentivados, justamente porque continuam sendo ignorados por muita gente, também é impossível ignorar a importância dessas iniciativas. Afinal, é difícil imaginar como seria o trânsito hoje sem elas. Ainda assim, fica cada vez mais evidente que o cerne do problema não está apenas na relação do indivíduo com o trânsito, mas também na forma como ele lida com suas frustrações, seus impulsos e, no fim, com a própria vida.
O problema é que grande parte das pessoas ainda acredita que acidentes acontecem sempre, e apenas, com “os outros”. O motorista que olha o celular por alguns segundos, acelera porque está atrasado, dirige irritado ou força uma ultrapassagem costuma acreditar que tem controle total da situação. Mas no trânsito, o excesso de confiança é uma imprudência com potencial fatal. A gente se perde na ilusão de que o comportamento do outro será óbvio, previsível ou parecido com o nosso. E talvez o erro mais perigoso seja justamente esse: dirigir como se a reação do outro também estivesse sob nosso controle.
Só este ano, em apenas três meses, já foram registrados mais de 17 mil casos de lesão corporal por acidentes de trânsito e mais de 800 mortes no trânsito. Os dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo deixam claro o porquê de existirem campanhas de conscientização no trânsito, como no caso do Maio Amarelo.
Diferente do que muitos imaginam, maio não foi escolhido para esta campanha por concentrar o maior número de registros no trânsito. Ainda assim, os dados de maio de 2025 mostram que foram registrados 6.368 casos de lesão corporal culposa e 389 homicídios culposos por acidente de trânsito, dois dos maiores números daquele ano. Isso nos faz questionar se não estamos caminhando para um desfecho parecido em 2026.
E é por isso que falar sobre trânsito também precisa ser falar de autoobservação. Perceber quando a pressa virou irritação, quando o cansaço virou distração ou quando a frustração começou a influenciar nossa conduta e postura no trânsito é parte vital para a redução de ocorrências e sinistros. Desenvolver autocontrole, praticar autocrítica e até buscar apoio psicológico quando necessário não deveria ser visto como um exagero desconexo do assunto, mas como uma forma de lidar melhor com os próprios limites.
E quando, ainda assim, algo sai do controle, a consciência do amparo também pode ajudar a regular a emoção de motoristas e pilotos em momentos críticos. Em situações de pane, colisão, acidente ou qualquer outro imprevisto no trânsito, ter acesso a um atendimento preparado, um guincho e uma assistência emergencial 24h não substitui a atenção à própria conduta, mas pode reduzir o desespero, a insegurança e a sensação de estar sozinho quando a situação exige calma.
Ao todo, 2025 terminou com 72.666 lesões e 3.855 mortes dessa natureza registradas. Pelos dados já divulgados de 2026, que seguem bastante semelhantes, tudo indica que ainda é necessário reforçar, e muito, a conscientização no trânsito e, acima de tudo, o autocontrole que nos ajuda a evitar que sejamos “espontâneos demais” em um lugar onde o bom senso deveria ser predominante.



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